quinta-feira, 18 de março de 2010

Coisas da mamãe



Manhã de quinta-feira, sentia um ventinho frio vindo do ar-condicionado barulhento da sala de aula, todos estavam concentrados nas análises de balanços e eu matando aula, escrevendo numa folha emprestada, com as unhas pintadas de um turqueza altamente vibrante. Só minha mente não vibrava nada, tinha deixado os neurônios desligados da tomada. Não estava muito afim de saber se a empresa X tinha liquidez pra pagar suas contas no longo prazo ou sobre a diminuição de aplicações financeiras...Peguei a imaginação e fui passear.
Fui numa rua lá da minha infância, exatamente na terceira travessa da Rua Nova, onde ficava minha antiga casa. Encontrei mamãe fazendo suco de laranja num papeiro, tinha um sabor de fim de tarde quente que nunca mais encontrei.
Ela carregou meu corpo e minha preguiça até a rede e ficou me embalando com músicas de igreja, era sempre assim depois do meio-dia. Toda criança tem uma cor, vivia furtando muitas delas.
De noite, antes de dormir, a mulher que neste momento está bordando flores num lençol vinha ler para mim o Pequeno Príncipe. Contava a estória do menino que via o pôr-do-sol tantas vezes que não contava nos dedos, das suas lutas com o baobá, que havia uma rosa orgulhosa no seu planeta e de como ele queria o desenho de um carneiro.
Mamãe nunca entendeu de arte mas pincelava tons rosa-poesia ali na minha cama. Aos seis anos este era o quadro da minha realidade.

2 comentários:

  1. Essas sensações da época de infância que parecem inalcançáveis e únicas são boas de lembrar, parece até vento na cara e o chero da época acaba vindo, só pra procurarmos. Acho bom o livro apesar de fazer alusão negativa a respeito de uma árvore sagrada africana. Por isso não confio na mente européia^^.

    um beijo, moça linda.

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